quarta-feira, 26 de setembro de 2012

a visibilidade é a própria virtude

nenhum actor literário se queixe de não ser notado. antes avalie se cumpre os mínimos para que o vejam. e mais, se esses mínimos estão suficientemente camuflados para passarem por bons:  o tempo que vivemos põe a visibilidade muito à frente da virtude. hoje à mulher de césar basta parecer séria. nunca, como agora,  o verso "morrer é  só não ser visto"  traduziu tão bem a situação actual da arte. valho-me aqui da liberalíssima liberdade de puxar o célebre heptassílabo (1) à minha sardinha. deveria cortar-lhe o advérbio para uma interpretação à letra, o certo é que há coisas que não se fazem. 

vem isto a propósito de pedro mexia e do seu regresso ao teatro do campo alegre, às quintas de leitura, oito anos depois de ter lá ido. dir-se-á que o país está pobre em aspirantes para se bisarem reservistas. não sei como vai desembaraçar-se com os poemas, em geral demasiado curtos para serem escutados, demasiado átonos para despertarem o ouvido, demasiado sem brilho para evitarem o peso das pálpebras. flâneur blasé, é provável que contenha os seus próprios bocejos na sessão. agora trata-se de gerir o empreendedorismo (2) em que se meteu. valha-lhe joão luís barreto guimarães, que vai apoiá-lo amanhã em palco, depois de se ter esfalfado, num longo périplo pela pátria, a vender a sua própria antologia. não sem que o blogue do evento a que acorre lhe tenha publicado hoje este texto. não deve ter percebido a subtileza comercial. menos por menos, assim foi baptizado o espectáculo, é o título da antologia pessoal de pedro mexia. merchandising algo cínico, além do mais. só se tem uma vida. pois.

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 (1) - do poema a morte é a curva da estrada, de fernando pessoa, in poesias, edições ática, 14.º edição, 1993. a nota é para sublinhar o adjectivo célebre. Uma celebridade tão relativa que nem o é, tratando-se de quem se trata. mutatis mutandis...
  (2) - as minhas desculpas por tão detestável palavra, mas não sei de outra que encaixe melhor na circunstância.

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